Robert Plant e sua Craviola
Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, e sua Giannini Craviola.

Se me perguntarem qual instrumento brasileiro merece o status de mito, responderei sem titubear: Giannini Craviola. Mas por que esse violão / guitarra / cravo e viola é tão especial a ponto de chegar às mãos de ícones da música como Jimmy Page e Robert Plant? É isso que você lerá nas próximas linhas deste artigo. Então, sente-se confortavelmente porque lá vem história!

Jimmy Page tocando uma Craviola
O lendário guitarrista Jimmy Page.

A origem da Craviola

Giorgio Giannini
Giorgio Giannini

No já longínquo ano de 1969, época de conflitos políticos, libertação da mulher e movimentos estudantis, duas pessoas se juntaram com um objetivo pra lá de banal: fazer um lanche e conversar sobre violões. Acontece que os dois amigos eram Giorgio Giannini, cujo sobrenome o liga à empresa fundada por Tranquillo Giannini em 1900, e o violonista Paulinho Nogueira.

Paulinho Nogueira
Paulinho Nogueira

Entre uma mordida no lanche e um gole de cerveja – a cerveja é por minha conta, não sei o que bebiam – Giannini e Nogueira conversavam sobre os modelos de violões disponíveis naquele período. Conversa vai, conversa vem, começaram a desenhar em guardanapos algumas possibilidades de formatos diferenciados, até chegarem ao desenho que a tantos admiradores e músicos causa encantamento.


Curiosidade #1: a primeira aparição da Craviola nos catálogos de produtos da Giannini ocorreu em 1973. Contudo, o ano de concepção da craviola é 1969.

Curiosidade #2: Paulinho Nogueira teve sua ocupação principal como desenhista, mas não conseguiu prosseguir na carreira – para sorte da música brasileira – e resolveu viver da música como autodidata.


Catálogo de produtos da Giannini
Catálogo dos produtos Giannini de 1973: modelos de 12 e 6 cordas de aço e modelo de 6 cordas de nylon.

Cravo + Viola = Craviola

​A Craviola é um produto exclusivo da Giannini, patenteado internacionalmente. O nome do instrumento só nasceu após a construção do primeiro protótipo, que era um modelo de 12 cordas. Como os encordoamentos utilizados para o teste eram de viola, o som produzido pelo instrumento acabou dando origem ao seu nome. Ao testar sua invenção, Paulinho Nogueira notou as características sonoras únicas do modelo. Segundo o violonista: “Eu só fui ter essa noção mesmo depois que ela ficou pronta. Como parecia um pouco do som de cravo e um pouco de viola, nasceu o nome evidente. Nos Estados Unidos eles gostaram muito desse nome, caiu bem para eles.”

Violão Giannini Craviola de 12 cordas.
Giannini Craviola de 12 cordas.

Afinal, a Craviola é violão ou é guitarra?

Craviola é um instrumento musical de 06 e 12 Cordas. Apesar de seu nome, não é cravo nem é viola. Trata-se, originalmente, de um violão cujos formato e sonoridade são diferentes de violões “comuns”.

Guitarra craviola

O formato único da Craviola tem nome: “bojo português” ou “pingo d’água”. Lançada originalmente como violão, a Craviola logo fez sucesso no país e no exterior, sendo inclusive utilizada por Jimmy Page, que a tem em grande conta como instrumento de som peculiar.

Embora tenha sido originalmente pensada como um instrumento acústico, não demorou muito para que o formato chegasse às guitarras da marca.


Curiosidade #3: a Craviola é o shape de guitarra brasileiro mais famoso no mundo.

Curiosidade #4: o Led Zeppelin utilizou a Craviola entre 1971 e 1972, principalmente na música “Tangerine”.

Entrevista com Paulinho Nogueira

A Página da Música fez uma incrível entrevista com Paulinho Nogueira, morto em 2003, na qual o músico foi perguntado sobre a invenção da Craviola.

  • Página da Música – Já que estamos falando do violão, eu gostaria também de lembrar que você inventou a craviola…
  • Paulinho Nogueira – É, eu não tenho a pretensão de dizer que descobri um instrumento novo. Eu fiz, de certa forma, um violão diferente. Um formato diferente e com uma afinação diferente. Quem fez foi um funcionário do Giannini, ele chamava-se Rômulo. Mas quando levei a ideia para o Giannini, ele achou fantástica e me fez assinar um contrato. Em seguida, a craviola foi exportada para a Alemanha e Estados Unidos. O Luís Bonfá, por exemplo, gravou um LP naquela época, só com a craviola. Isso me deu muita satisfação.
  • Página da Música – Como você teve a ideia de criar esse instrumento?
  • Paulinho Nogueira – Eu sempre gostei muito de desenhar. Acho que a craviola nasceu daí. De eu fazer alguma coisa que envolvesse a área das artes plásticas.
  • Página da Música – Curioso. Quer dizer que o instrumento nasceu através do estímulo da arte gráfica e não exatamente pela sonoridade?
  • Paulinho Nogueira – Fiz vários modelos e mostrei para o Giannini. Ele achou que esse projeto era viável. Aí surgiu a craviola. Tem um sobrinho meu, chamado Stênio Mendes, que se especializou bastante na craviola. Já fiz shows com ele. Ele é um craviolista mesmo.
  • Página da Música – Você já tinha ideia do tipo de som que ela produziria?
  • Paulinho Nogueira – Eu só fui ter essa noção mesmo depois que ela ficou pronta. Como parecia um pouco do som de cravo e um pouco de viola, nasceu o nome evidente. Nos Estados Unidos eles gostaram muito desse nome, caiu bem para eles. A princípio, eles compraram muitas craviolas. Mas a craviola não é um instrumento fácil de tocar, precisa conhecer um pouco.

A Craviola moderna

Desde seu surgimento, a Craviola ganhou diversas reedições. Veja como está a atual guitarra Craviola:

Guitarra Craviola Giannini GCRA-202

Giannini Craviola Guitarra

A guitarra Craviola Giannini GCRA-202 é uma reedição de luxo do instrumento que marcou a era de ouro do Rock nacional. São inúmeros os destaques deste incrível instrumento. Começamos pela madeira: seu corpo é em puro Mogno, o tampo em Flamed Maple Top, de primeiríssima linha e braço em Cedro.

Na parte elétrica temos: 2 captadores Humbucker originais da marca Wilkinson, uma chave tradicional de três posições, dois volumes e dois tones, e duas chaves específicas para cada captador, que pode transformar o pickups em Single Coils ou Humbuckers.

A guitarra tem um timbre semelhante a uma Les Paul, e é realmente incrível o peso e o corpo do som. Porém quando trabalhamos com as chaves ligando os single coils dos captadores, temos um timbre bem estalado, brilhante, semelhante as stratos. Muito interessante.

  • Características Técnicas:
  • Modelo: GCRA-202
  • Acabamento: Verniz Brilhante
  • Braço: Cedro
  • Captadores: 2 Humbuckers Wilkinson
  • Controles: Chave Seletora 3 Posições, 2 Volumes e 2 Tonalidades. 2 Mini-Switch
  • Corpo: Mahogany com Maple Flamed Top
  • Dimensões: 44.000 x 112.000 x 10.750 CM
  • Escala: Rosewood
  • Ferragens: Cromadas
  • Marcação: Retangular em Madrepérola
  • Ponte: Standard Tune-o Matic
  • Tarraxas: Blindadas e Cromadas
  • Cores: Crimson Red (CRM), Light Chocolate Burst (LCB) e 3 Tone Sunburst (3TS)

Baixo Craviola: uma lenda?

Baixo Giannini Craviola Bass

Existe, nos fóruns internet afora, uma lenda que conta sobre a existência de um contrabaixo Craviola da Giannini. Alguns dizem ter visto esse instrumento, outros sonharam com ele, outros conhecem amigo que tem um amigo que tem um primo que tocou em um… mas as informações não vão muito adiante e a conversa logo se encerra.

Até agora…

Pois o baixo Craviola existe, sim! Apenas nunca foi vendido ou apresentado em terras brasileiras. Por que não? Ninguém sabe ao certo. Contudo, por um breve período de tempo, o mercano norte-americano teve a chance de ver, tocar e comprar o Craviola Bass, cuja sigla é GCRA-202 B EL FM. Quer uma prova? Apresento duas: fotos e o link do site americano da Giannini.

Características Técnicas do Baixo Craviola (GCRA-202 B EL FM):

  • Modelo: Baixo Craviola com 4 cordas
  • Corpo: Mogno com Flamed Maple Top
  • Escala: Rosewood
  • Controles : 2 Volume e 2 Tones
  • Ponte: Tune-o Matic Stop Tailpiece
  • Acabamento: verniz brilhante
  • Captadores: 2 Humbuckers
  • Nut / Pestana: Nubone
  • Marcações: Pearl Block
  • Escala: 30 – 3-4 Scale
Baixo Giannini Craviola Bass
Baixo Giannini Craviola: ainda não tivemos o prazer de tocar este legítimo Giannini em solo tupiniquim.

Depois de mais de 50 anos de existência, a Craviola continua sendo um instrumento inspirador e legitimamente brasileiro. Mas, mais do que apenas uma ferramenta de trabalho para músicos, a Craviola faz parte do panteão dos grandes instrumentos fabricados no Brasil – quiçá no mundo.


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